“Arrogância”, “Punição” e “Destruição”: Bob Dylan fala sobre coronavírus

16 de junho de 2020

Em raro depoimento para o New York Times, vencedor do Nobel e lenda da música popular americana aborda temas como morte, influências e o mundo de hoje.

Foto: via Shutterstock

 

Bob Dylan não é um artista acostumado a dar entrevistas.

Aos 79 anos de idade, ele costuma disponibilizar suas canções e fazer seus shows sem muito material para a imprensa. Mas, recentemente, ele resolveu falar em uma conversa com o jornal The New York Times.

Há um sentido apocalíptico em “Murder most foul”. Acha que, em 2020, possamos ter chegado a um ponto sem volta? A tecnologia e a hiperindustrialização podem condenar a vida humana na Terra?

Claro, há muitas razões para ficar apreensivo. Definitivamente, há muito mais ansiedade e nervosismo por aí do que antes. Mas isso só se aplica a pessoas de uma certa idade como eu e você. Temos a tendência de viver no passado, mas os jovens não têm essa tendência. Eles ainda não têm um passado, tudo o que sabem é o que vêem e ouvem, e podem acreditar em qualquer coisa. Daqui a 20 ou 30 anos, eles estarão no comando. Alguém com 10 anos de idade, que estará no controle em 20 ou 30 anos, não terá ideia do mundo que conhecíamos. Os adolescentes de agora não têm uma referência de memória. Então, provavelmente é melhor ter essa mentalidade o mais rápido possível, porque essa será a realidade.

Em relação à tecnologia, ela nos torna a todos vulneráveis. Mas os jovens não pensam assim. Eles poderiam se importar menos. Eles já nasceram num mundo de tecnologia avançada, nosso mundo já está obsoleto.

Um verso de “False prophet” (“Sou o que ficou de melhor/ você pode enterrar o resto”) me lembrou as recentes mortes de John Prine e Little Richard. Você ouviu a música deles depois de suas mortes, como uma homenagem?

Eles triunfaram em seu trabalho, não precisam de ninguém fazendo homenagens. Todo mundo sabe o que eles fizeram e quem eles eram. E eles merecem todo o respeito e aclamação que receberam, sem dúvida. Mas cresci com Little Richard, e ele estava lá antes de mim. Ele acendeu uma faísca dentro de mim, me liguei em coisas que nunca saberia sozinho. Então, penso nele de forma diferente. John veio depois de mim, então, não é a mesma coisa. Eu penso neles de forma diferente.

Por que mais pessoas não prestaram atenção à música gospel de Little Richard?

Provavelmente porque a música gospel é a música das boas novas (significado de Evangelho) e atualmente não há nenhuma. As boas novas no mundo de hoje são como um fugitivo, que é tratado como um bandido e posto em fuga. Castigado. Tudo o que vemos são notícias inúteis. E temos que agradecer à indústria da mídia por isso. Fofocas agitam as pessoas. Notícias duras deprimem e horrorizam você.

Por outro lado, as boas novas do gospel são exemplares. Isso pode lhe dar coragem. Você pode segui-las em sua vida ou tentar fazer isso. E pode fazer com honra e princípios. Existem teorias da verdade no evangelho, mas para a maioria das pessoas isso não é importante. Suas vidas passam rápido. Muitas más influências. Sexo, política e assassinato são o caminho a seguir, se você quiser chamar atenção. Isso nos atrai, esse é o problema.

Little Richard era um ótimo cantor gospel. Mas acho que ele era visto como um estranho ou um intruso neste mundo, eles não o aceitaram lá. E é claro que o mundo do rock’n’roll queria mantê-lo cantando “Good golly, Miss Molly”. Então, sua música gospel não era aceita em nenhum mundo. Acho que o mesmo aconteceu com a Irmã Rosetta Tharpe (cantora gospel dos anos 1940, considerada uma das pioneiras do rock). Não consigo imaginar nenhum deles se incomodando muito com isso. Ambos são o que costumávamos chamar de pessoas de alto caráter: genuínas, talentosas e que conheciam a si mesmos, não eram influenciadas por nada de fora. O Little Richard que eu conheço era assim.

Mas Robert Johnson também, mais ainda. Robert foi um dos gênios mais inventivos de todos os tempos. Mas ele provavelmente não tinha um público para quem falar. Ele estava tão à frente que ainda não o alcançamos. Seu status hoje não poderia ser maior. Mas, na sua época, suas músicas deviam confundir as pessoas. Isso só mostra que grandes nomes seguem seu próprio caminho.

No álbum “Tempest”, você interpreta “Roll on John” como uma homenagem a John Lennon. Há outra pessoa para a qual você gostaria de escrever uma balada?

Esse tipo de música para mim sai do nada, nunca planejo escrever nenhuma delas. Mesmo assim, existem certas figuras públicas que ficam no seu subconsciente por um ou outro motivo. Nenhuma dessas músicas com nomes destacados é intencionalmente escrita. Eles simplesmente vêm do espaço. Não tenho uma explicação melhor do que qualquer outra pessoa sobre o motivo de tê-las escrito. Penso que o folk tem uma longa tradição de dedicar canções a algumas pessoas. John Henry, Mr. Garfield, Roosevelt. Acho que estou preso a essa tradição.

Você celebra vários ídolos em suas músicas. Sua menção a Don Henley e Glenn Frey em “Murder most foul” me surpreendeu um pouco. Quais músicas dos Eagles você mais gosta?

“New kid in town,” “Life in the fast lane,” “Pretty maids all in a row”. Poderiam estar entre as melhores músicas de todos os tempos.

Nesta música você também se refere a Art Pepper, Charlie Parker, Bud Powell, Thelonious Monk, Oscar Peterson e Stan Getz. Como o jazz oinspirou como compositor e poeta em sua carreira?

Talvez as primeiras coisas de Miles na Capitol Records. Mas o que é jazz? Dixieland, bebop, fusion? O que você chama de jazz? É Sonny Rollins? Eu gosto das coisas meio calypso de Sonny, mas isso é jazz? Jo Stafford, Joni James, Kay Starr, acho que eram todos cantores de jazz. King Pleasure é minha ideia de cantor de jazz. Eu não sei, você pode colocar qualquer coisa nessa categoria. O jazz remonta aos Loucos Anos 1920. (O maestro) Paul Whiteman já foi chamado de rei do jazz. Certamente se você perguntasse (ao saxofonista) Lester Young, ele não teria ideia do que você está falando.

Se alguma coisa já me inspirou? Sim, provavelmente muito. Ella Fitzgerald como cantora me inspira. Oscar Peterson como pianista, sem dúvida. Alguma coisa me inspirou como compositor? Sim, “Ruby, my dear”, de (Thelonious) Monk. Ela me levou numa direção a fazer algo assim. Me lembro de ouvi-la várias vezes.

Qual o papel do improviso na sua música?

Nenhum. Não dá para mudar a natureza de uma música depois de inventá-la. Você pode definir diferentes padrões de violão ou piano nas linhas mestras e seguir daí, mas isso não é improvisar. O improviso deixa você aberto para performances boas ou ruins, e a ideia é se manter consistente. Basicamente, você toca a mesma coisa de novo e de novo da forma mais perfeita que conseguir.

“I contain multitudes” tem partes surpreendentemente autobiográficas. Os dois últimos versos trazem um estoicismo sem rendição, enquanto o resto da música é divertidamente confessional. Você se divertiu lutando com impulsos contraditórios de si mesmo e da natureza humana em geral?

Realmente não tive que enfrentar muito isso. É o tipo de coisa em que você junta versos de fluxo mental e depois os deixa quietos, e começa a puxar essas coisas. Nessa música em particular, os últimos versos vieram primeiro. Então, a música seguia assim o tempo todo. Obviamente, o catalisador da música é o verso-título. É um daqueles onde você escreve por instinto, meio que em estado de transe. A maioria das minhas músicas recentes é assim. As letras são reais, tangíveis, não são metáforas. As músicas parecem conhecer a si mesmas e saberem que posso cantá-las, em termos vocais e rítmicos. Elas meio que se escreveram sozinhas e contam comigo para cantá-las.

Reforçando, nesta música você nomeia muitas pessoas. O que o fez você mencionar Anne Frank ao lado de Indiana Jones?

A história dela significa muito, é profunda. E é difícil de articular ou parafrasear, especialmente na nossa cultura, com todo mundo com uma atenção tão curta. Mas você está tirando o nome de Anne de contexto, ela faz parte de uma trilogia. Você também pode perguntar: “O que fez você decidir incluir Indiana Jones ou os Rolling Stones”? Nomes em si não estão soltos, é a combinação deles que se soma a algo mais do que eles sozinhos. Focar nos detalhes é irrelevante. A música é como uma pintura, não dá para ver tudo de uma vez se estiver muito perto. As partes individuais são apenas parte do todo.

“I contain multitudes” é mais como escrever em transe. É o que realmente sinto sobre as coisas. É a minha identidade, e não vou questioná-la, não estou em posição para isso. Todo verso tem um propósito particular. Em algum lugar do universo, esses três nomes devem ter pago o preço do que representam, estão presos nisso juntos. Não posso explicar isso, o porquê, onde ou como, mas é o que acontece.

Mas Indiana Jones não é um personagem fictício?

Sim, mas a trilha de John Williams o trouxe à vida. Sem essa música, não seria muito mais do que um filme. Foi a trilha que trouxe Indy à vida. Talvez seja uma das razões pelas quais ele entrou na canção. Não sei, os três nomes vieram de uma vez.

Falando nos Rolling Stones, só de brincadeira, quais músicas deles você gostaria de ter escrito?

Ah, não sei. Talvez “Angie,” “Ventilator blues”, e o que mais? Deixe-me ver. Ah, sim, “Wild horses”.

Como passou os últimos dois meses em Malibu? Conseguiu esculpir (com solda) ou pintar?

Sim, um pouco.

Você é musicalmente criativo em casa? Você toca piano e instrumentos em seu estúdio?

Faço isso principalmente nos quartos de hotel. Um quarto de hotel é o mais próximo que chego de um estúdio.

Ter o Oceano Pacífico em seu quintal ajuda a processar a pandemia de Covid-19 de uma forma espiritual? Uma teoria chamada “mente azul” afirma que morar perto da água é uma espécie de cura.

Sim, quero acreditar nisso. “Cool water”, “Many rivers to cross”, “How deep is the ocean”. Quando ouço qualquer uma dessas músicas é como uma espécie de cura – não sei para o quê, mas é como uma cura para algo que nem sei que tenho. É como algo espiritual, a água é uma coisa espiritual. Nunca ouvi falar de “mente azul” antes. Parece algum tipo de blues lento. Algo que Van Morrison escreveria. Talvez ele tenha escrito, não sei.

É uma pena que, quando a peça “Girl from the North Country”, musical da Broadway inspirado em sua obra, que estava recebendo ótimas críticas, teve de ser interrompida por causa da pandemia. Você já viu a peça?

Claro, já vi, e isso me afetou. Eu ia como um espectador anônimo, não como alguém que tivesse algo a ver com ela, só deixei rolar. Ela me fez chorar no final, e nem sei dizer o porquê. Quando a cortina se abriu, estava maravilhado. Pena que a Broadway fechou, porque eu queria vê-lo novamente.

Você pensa nessa pandemia em termos quase bíblicos, como uma praga que varreu o mundo?

Acho que é um precursor de algo mais por vir. É uma invasão, com certeza, e está por toda a parte, mas bíblica? Você diz algo como um sinal de alerta para as pessoas se arrependerem de seus erros? Isso implicaria que o mundo está prestes a algum tipo de punição divina. A arrogância extrema pode ter castigos desastrosos. Talvez a gente esteja à beira da destruição. Existem várias formas de pensar sobre esse vírus. Acho só que é preciso deixar que isso siga o seu curso.

Como está sua saúde? Como você mantém a mente e o corpo trabalhando juntos?

Essa é a grande questão, não é? Como alguém faz isso? Sua mente e seu corpo andam de mãos dadas. Tem que haver algum tipo de acordo. Gosto de pensar na mente como espírito e no corpo como substância. Como você integra essas duas coisas, não faço ideia. Apenas tento seguir uma linha reta e permanecer nela, e me manter neste nível.

Fonte: O Globo/TMDQA/ New York Times

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Artista: Neil Young
Música: Rockin' In The Free World
#Esse som é muito marcante pra mim porque foi o primeiro que rolou na minha programação.

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