Documentário aborda cena riot grrrl brasileira nos anos 1990 em São Paulo; assista

11 de setembro de 2020

Faça Você Mesma’ estreou nesta quinta-feira (10) no festival In-Edit e mostra versão brasileira do riot grrrl. Veja como shows para 50 fãs e gravações em fitas k7 fizeram barulho.

Banda Dominatrix — Foto: Marcos Aragão/Arquivo Pessoal

 

A agressividade dos vocais e das guitarras de um pequeno grupo de adolescentes no início da década de 1990, em São Paulo, não foi abafada nem mesmo pela sonoridade das fitas k7. Na verdade, impactaram profundamente a formação de uma geração de mulheres.

A cineasta Letícia Marques, 36 anos, é uma delas. No documentário “Faça Você Mesma”, lançado nesta quinta-feira (10), ela mostra como foi o movimento riot grrrl no Brasil. O longa é fruto da pesquisa dela e de um time de mulheres, nos últimos quatro anos. Assista aqui.

“O riot grrrl foi muito mais do que ‘música feita por garotas’. O ambiente do hardcore era machista e hostil à presença de mulheres. A música foi um veículo para que elas se apropriassem de um espaço, que é a grande mensagem do punk, mas tudo permeado por apoio mútuo, que é uma tradição feminista”, explica Letícia.

“Faça Você Mesma” estreia nesta quinta no Festival Internacional do Documentário Musical (In-Edit) e fica disponível na plataforma online até 20 de setembro. A distribuidora do filme ainda negocia o lançamento em plataformas de streaming.

Chegada ao Brasil

A cineasta explica que o movimento nasceu no estado de Washington, nos Estados Unidos, de onde emergiram bandas como Bikini Kill, Bratmobile e Heavens To Betsy. Letícia viveu nessa região durante a adolescência.

O riot grrrl desembarcou em São Paulo por meio de fitas k7 que uma amiga gravava para outra e também pelo empenho de selos, como Kill Rock Stars e Teenager In A Box. A coletânea Punk Rock Não É Só Para O Seu Namorado também foi importante para espalhar esses sons.

Os holofotes não eram para mulheres nem nos Estados Unidos e tampouco no Brasil. Mais do que ocupar um espaço, adolescentes se uniram para criá-lo.

O filme mostra que, em São Paulo, a banda Dominatrix abriu os caminhos em março de 1995, com um show no Victoria Pub, antiga casa noturna na Alameda Lorena, bairro dos Jardins.

Aquele foi o começo da construção de uma cena por um grupo muito pequeno de amigas, e amigas de amigas. O grupo não apenas alcançou o palco, como inspirou uma geração de outras garotas que queriam tocar e cantar.

“Ouvir aquelas garotas se expressando trouxe isso para a minha adolescência: experimente, questione, critique, se descubra”, lembra Letícia.

“É essa autonomia, essa ética, que sintetiza pra mim o que é se aprimorar. Foi a primeira centelha do pensamento: ‘nossa, é possível uma mulher com essa atitude’. Mexe com a autoestima.”

Pesquisa

O documentário apresenta relíquias desta cena, que se desenvolveu no underground. Era como uma legítima contra-cultura paulistana, presenciada por plateias de 50 pessoas.

Isso dificultou o acesso aos materiais da época, como fitas VHS, fotos, CDs raros e cartazes, mas o compilado em “Faça Você Mesma” é suficiente para transportar o espectador para dentro dos inferninhos escuros.

Foi neles onde a cena se desenrolou. Espaços como o Alternative, na Penha, eram ocupados por cabeludos ouvindo canções com letras incompreensíveis, gritadas por garotas tatuadas em busca do seu lugar de fala.

Personagens

Além dos documentos, Letícia Marques também conversou com as protagonistas desta história, que tomaram rumos diferentes na vida.

Da esquerda para direita, Carolina Pfister, em Portland, Oregon; Andressa Saboya, em Santos; Isabella Gargiulo, em Portland, Oregon; Marcela Mattos e Gigi Louise, em Santos; Jan Veneziani, em São Paulo; e Barbara Fraga, em Belo Horizonte. Cineasta Letícia Marques localizou algumas das garotas que construíram o riot grrrl no Brasil — Foto: Black Sheep Filmes/Divulgação

 

Foram 25 entrevistas com integrantes de bandas icônicas do movimento. Há relatos de quem surgiu com a cena, como Dominatrix, TPM e Hitch Lizard.

Mas também há espaço para os últimos expoentes, como o Miêta e o Bertha Lutz, passando pelas garotas do Siete Armas e do Hidra, no início dos anos 2000.

“Percebi que a autenticidade e a iniciativa daquelas mulheres se mantiveram, além do feminismo. Hoje, todas, de alguma forma, trabalham em uma rede com mulheres, ensinam mulheres, trabalham em ONG para mulheres ou montaram o próprio estúdio.”

“Senti também que continua presente o processo de autodescoberta”, conta a cineasta, que viajou de Santos (SP) a Portland, no estado americano do Oregon, para fazer as entrevistas.

Mais que música

Com os resultados da pesquisa em mãos, Letícia Marques começou as discussões que ocupam o centro do movimento riot grrrl. Entre os assuntos, destacam-se a micro-politica e as barreiras particulares enfrentadas pela mulher brasileira.

Dessa forma, a cineasta conecta aquele pequeno fragmento da história das mulheres de São Paulo a pautas ainda atuais.

“A busca daquelas adolescentes por pertencimento e reconhecimento continua sendo uma busca de todas as mulheres”, compara.

“Revela que o feminismo continua sendo necessário. A diferença é que tudo isso foi dito naquela época por meio da música, que permeava a vida dos jovens, já que o acesso a isso era diferente, demandava uma vontade de procurar, de gravar fitas k7, trocar descobertas, formando uma rede.”

O pano de fundo de “Faça Você Mesma” é uma playlist cronológica do desenvolvimento daquela cena, com diversidade de artistas, mas cadência na conexão entre elas. A sonoridade do filme ilumina um dos grandes trunfos deste documentário: a montagem.

Letícia Marques sintoniza o ritmo da estrutura narrativa ao processo de amadurecimento do próprio riot grrrl e de suas protagonistas.

O início tem os ruídos homogêneos produzidos por adolescentes em busca da própria identidade. Depois, ganha fôlego com os depoimentos até culminar, quase como em uma hipnose, em um final mais melódico, que remete à maturidade.

“A ideia de fazer um filme vem também de introduzir e apresentar possibilidades. Neste caso, a possibilidade do feminismo, da sororidade, da autonomia, da auto-descoberta, da transformação, do amor, do pertencimento. Acho que o cinema pode trazer essa possibilidade, como o riot grrrl trouxe para a minha vida”, comenta a diretora.

“Me reconheci nele como mulher e ser humano. Trouxe empoderamento, por todo o conceito, e também pela musicalidade. Gostaria que o filme trouxesse esta inspiração pra quem assistir também. Que ‘faça por si mesma’ na vida. Acho que essa é a ideia. Mostrar que a gente pode e dever fazer o que quer, e não se desculpar por isso, e ocupar os lugares, e o mundo.”

Fonte: G1

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